Recentemente, publicámos um artigo dedicado ao programa Centro 2030 – Pinhal Interior, onde explicamos as condições necessárias para que uma empresa possa beneficiar de um apoio público.
À primeira vista, a lógica parece simples: uma empresa verifica os critérios de elegibilidade, confirma o enquadramento e pode avançar para a candidatura.
No entanto, na prática, muitas empresas que cumprem os critérios nunca chegam a beneficiar dos apoios.
Porquê?
Através da resposta a esta questão prática, proponho hoje explorar uma transformação muito mais ampla — aquela que começa a atravessar praticamente todos os setores: a automatização e a inteligência artificial.

Porque, no fundo, a questão é relativamente simples:
onde deve realmente continuar a existir trabalho humano?
No caso dos incentivos públicos, esta lógica torna-se particularmente visível.
I. O duplo filtro dos incentivos
Na prática, esta questão traduz-se num problema de alocação de recursos.
Porque o processo de obtenção de uma ajuda pública não depende de um único critério, mas de dois filtros distintos.
O primeiro corresponde aos critérios objetivos:
- localização
- CAE
- dimensão da empresa
- situação administrativa
Este primeiro filtro determina se uma empresa pode ou não entrar no processo.
O segundo corresponde aos critérios subjetivos:
- coerência do projeto
- credibilidade da empresa
- capacidade de execução
- lógica económica
E é este segundo filtro que determina, na maioria dos casos, a aprovação do projeto e a obtenção da ajuda pública.

Na prática, muitas empresas de consultoria passam uma parte significativa do seu tempo a procurar empresas capazes de ultrapassar o primeiro filtro, para só depois trabalhar na parte realmente decisiva.
O nosso objetivo é precisamente reduzir ao máximo o tempo e os recursos alocados a esta primeira etapa.
II. Simplificar o primeiro filtro para melhorar o segundo
Quando alocamos recursos humanos, a verificação dos critérios objetivos é naturalmente a primeira etapa.
No entanto, o verdadeiro valor do processo encontra-se nos critérios subjetivos: a qualidade do projeto, a coerência da proposta e a capacidade de execução.
Isto cria um problema relativamente simples: quanto mais tempo é gasto a validar critérios básicos, menos recursos ficam disponíveis para estruturar projetos sólidos.
A abordagem lógica consiste então em simplificar ao máximo o primeiro filtro.
- automatizar ou acelerar a validação dos critérios de elegibilidade
- reduzir os casos pouco relevantes
- concentrar o trabalho apenas em empresas já enquadradas
Resultado: mais tempo, mais foco e maior qualidade na fase realmente decisiva.
Mas esta automatização resolve também um outro problema importante:
a existência de empresas que são elegíveis… sem o saber.
III. Exemplo concreto
Recentemente, identificámos uma empresa através do nosso processo de seleção.
O contacto inicial foi realizado no âmbito do voucher PRR – Transição Digital.
A empresa parecia cumprir os critérios objetivos para este incentivo.
Durante a análise, verificámos que ela não era apenas elegível para esse apoio, mas também para os Incentivos de Base Territorial (Centro 2030 – Pinhal Interior).
Esta segunda oportunidade não tinha sido identificada pela própria empresa.
Este caso ilustra um ponto importante: muitas empresas são elegíveis para programas de apoio sem terem consciência disso.
IV. Como tentamos neutralizar o primeiro filtro
Perante esta realidade, a questão deixa de ser apenas “como encontrar empresas elegíveis?” e passa a ser:
como estruturar um sistema capaz de ultrapassar rapidamente o primeiro filtro.
Partimos de dados públicos e bases empresariais, organizando informação como:
- CAE
- localização
- dimensão
- presença digital

Esses dados são depois estruturados e integrados no sistema.
A partir daí, filtramos e priorizamos empresas com maior potencial.
O objetivo não é trabalhar com mais contactos, mas com melhores contactos.
V. Comunicação e valor da informação
Esta abordagem produz um efeito adicional frequentemente subestimado: as empresas contactadas já são, à partida, elegíveis.
Isto altera profundamente o valor da comunicação.
Em vez de contactos genéricos ou irrelevantes, o objetivo passa a ser enviar informação que tenha utilidade concreta para quem a recebe.
Idealmente, pretendemos aproximar-nos de uma lógica simples:
que as empresas valorizem a informação recebida, porque ela faz sentido para a sua realidade.
VI. Desafios e evolução
Este tipo de sistema continua naturalmente em evolução.
A qualidade das bases de dados, a automatização da análise e o equilíbrio entre exigências legais e limitações técnicas continuam a ser desafios importantes.
Ao mesmo tempo, torna-se cada vez mais necessário melhorar a identificação do potencial real dos projetos.
VII. Conclusão
À medida que entramos numa fase de automatização cada vez mais avançada, torna-se essencial saber identificar:
- que tarefas devem ser automatizadas
- que processos podem ser simplificados
- e onde o trabalho humano continua a ter mais valor
No caso dos incentivos públicos, a automatização do primeiro filtro permite precisamente concentrar os recursos humanos naquilo que influencia realmente o resultado:
a qualidade dos projetos e a capacidade de transformar elegibilidade em aprovação.
